A transformação está em marcha

A mobilidade como a conhecemos hoje vai deixar de existir para dar lugar a um ecossistema de transição tecnológica assente, cada vez mais, no valor social, económico e na componente ambiental, ajustado consoante as necessidades dos consumidores e do mercado

O futuro da mobilidade não se traduz apenas na introdução das novas energias, menos poluentes, renováveis e alternativas. É fundamental que sejam consideradas as necessidades de transformação tecnológica e de sustentabilidade ambiental, bem como as necessidades dos clientes de acordo com a solução tecnológica que estão a adotar. Isto significa, como defende João Pedro Machado, que “dificilmente há uma solução que satisfaça todas as necessidades de consumo”. O Head of Offer & Transformation da Galp marcou presença na conferência digital 2021 da Apetro (Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas), onde falou sobre a estratégia da Galp para a transição energética (veja a intervenção entre 1:31:12 e 1:40:58).

Na conferência, que contou com a presença, em modo remoto, de John Cooper, da Fuels Europe, e de Filipa Rio, da Liquid Gas Europe, como keynote speakers, João Pedro Machado partilhou o palco com um conjunto de representantes de outras empresas associadas da Apetro, com a missão de apresentar os seus projetos e estratégias para esta mudança de paradigma energético que a Europa atravessa até 2050. Do lado da Galp, o responsável destaca o empenho no cumprimento das metas para a descarbonização, nomeadamente através da aposta e do investimento que está a fazer na produção destas novas energias. “A Galp tem um papel muito ativo na contribuição para os objetivos energéticos, estando envolvida num conjunto de projetos no âmbito do hidrogénio verde, na geração de eletricidade renovável, e na produção de GPL a partir de matérias biológicas, só para dar alguns exemplos”.

A Galp mantém a sua aposta no hidrogénio verde através da refinaria de Sines onde se propõe a desenvolver, até 2025, um eletrolisador com uma capacidade inicial de 100 megawatts (MW), e com possibilidade de expansão até 600-1000 MW, caso o modelo de negócio seja comprovado. O Head of Offer & Transformation reforça ainda a importância do trabalho de otimização da cadeia de valor da Galp para a integração das ‘novas’ energias, desde a geração da eletricidade renovável, produção de hidrogénio e a sua distribuição, transporte, armazenamento, comercialização e exportação.

A Galp propõe-se desenvolver, até 2025, um eletrolisador com uma capacidade inicial de 100 megawatts (MW) na refinaria de Sines

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No que se refere aos biocombustíveis, João Pedro Machado lembra que a Galp é a primeira empresa portuguesa certificada pela International Sustainability Carbon Certification a produzir GPL a partir de matérias biológicas. “Iniciámos aqui um processo de descarbonização de uma fonte energética que já é das mais eficientes no nosso país, e estamos a incorporar este gás renovável no GPL rodoviário da Galp e também o gás natural que está incluído no nosso mix de soluções de descarbonização da economia”, explica. “Fomos os primeiros a incluir o GNV [Gás Natural Veicular] na mobilidade em Portugal com projetos com a Carris, em Lisboa, e com a STCP, no Porto, e temos três centrais de gás natural veiculado em Sines, Matosinhos e Azambuja”, reforça.

Eletrificação sim, mas sem monopólio

Nas metas para a neutralidade carbónica definidas pela União Europeia até 2050 não há, praticamente, espaço para o petróleo e a eletrificação está no centro da estratégia do Green Deal. No entanto, como defende John Cooper, “a eletrificação terá um papel muito significativo para atingir os objetivos de longo prazo, mas não pode fazer tudo o que é necessário”. O responsável da Fuels Europe reconhece a importância da eletrificação em muitos setores, mas considera que um foco único pode ser um risco para toda a estratégia de transição energética. “Funciona bem com energia renovável e comporta poucas emissões de carbono, mas, para ter todos os veículos eletrificados, a Europa tem que garantir o fornecimento de toda a cadeia de valor para a mobilidade elétrica”, reforça.

“O futuro dos veículos ligeiros passará pela sua eletrificação, sendo esperado que em 2030 a maioria dos veículos sejam elétricos”

A expectativa da União Europeia é de que o consumo de eletricidade afeto à mobilidade cresça 5 a 10 vezes entre 2019 e 2040 no conjunto dos 27 estados-membros, consoante o cenário de transição energética. Por isso, acrescenta João Pedro Machado, “é seguro afirmar que o futuro dos veículos ligeiros passará pela sua eletrificação, sendo esperado que em 2030 a maioria dos veículos sejam elétricos”. O responsável da Galp acredita que a Europa está a passar por um grande projeto de transição energética e que a eletrificação da economia tem trazido um conjunto de alterações aos padrões de utilização e de consumo no segmento da mobilidade. “E este segmento da mobilidade vai alterar-se consoante a evolução destas tecnologias”. As fontes alternativas de energia continuarão a surgir, à medida que se alteram as necessidades dos consumidores e dos mercados e, acrescenta João Pedro Machado, “a mobilidade como hoje a conhecemos vai deixar de existir”.